Ian Fraser se aventura no íntimo em novo seu livro

Ian Fraser se aventura no íntimo em novo seu livro

Imagina ter que, além de encontrar uma cidade que não tem localização certa, ter que passar pela provação de se encontrar em si mesmo? Bem, esse é o caso de Mané, protagonista de Cartografia para Caminhos Incertos, o romance mais recente do escritor Ian Fraser.

Ian Fraser com seu novo livro, Cartografia para Caminhos Incertos.
Reprodução: Lígia Rizério

A gente é levado para a cidade de Redenção, que não pode ser achado em mapas e em nenhuma geringonça tecnológica. Nessa cidade mora Mané, um cara que “inventou de ser poeta”, e após receber um desafio do seu namorado Jeremias, ele acaba ultrapassando os limites de Redenção e se perde da cidade. Agora, ele vai passar por lugares pitorescos para voltar para sua cidade e reencontrar seu amado.

Em entrevista ao Literalle, ele falou um pouco na sua produção do livro e inspirações criadas. Durante a conversa, o autor explicou um pouco sobre um dos locais mais importantes da história, a cidade Redenção.

Eu queria uma cidade que fosse baiana, mas que também não tivesse no mapa, um lugar perto, contudo, impossível de chegar. Em muitas maneiras, Redenção é uma grande alegoria à ideia de paraíso ou de utopia, aquele lugar que todos buscam, mas que ninguém sabe ao certo se existe ou como chegar lá. E como se trata de uma obra que dialoga fortemente com a construção do eu, todos nós carregamos, de alguma forma, nossa própria Redenção, um ideal que queremos ser ou chegar. — explica

Mané e Ian Fraser, em grande sincronia

Como em outros livros do Ian, o personagem investigar dentro de si mesmo é uma parte importante da história. Dessa forma, parte dele também é parte do Mané.

Cartografia para caminhos incertos é o mais próximo de uma autobiografia que eu vou me aproximar. Na noite de lançamento, meu terapeuta estava lá. Ele terá uma leitura completamente diferente de todos os meus outros leitores. Ele vai ver paralelos que só eu e ele conhecemos. — conta o escritor

E assim como Mané, outros personagens do autor, como Severino Olho de Dendê, também precisam se conhecer no íntimo durante suas aventuras.

Acredito que todo artista trabalha o eu em suas artes. É como tentar fugir de nossa sombra em dia de sol, sabe? Não tem como. E quando estamos falando de personagens, é sempre importante entender que a incompletude faz parte de nossos processos. Li alguns livros sobre escrita criativa em minha carreira, é algo que não vejo com frequência é o estudo e análise das incompletudes narrativas, seja na trama ou nos personagens. Você não pode conhecer todos os aspectos de seu personagem de antemão, caso contrário, estará fadado a deixá-lo estagnado, frio e desprovido de mistério. É importante, para mim, como escritor, e conhecendo coisas do personagem que eu não conhecia de primeira, e, normalmente, esses são os pontos que acabam ganhando espaço e fôlego durante a escrita.  — aponta

Como se nasce um livro?

Fraser gosta de seguir o ritmo que o livro lhe leva. Ele faz o que acha melhor para criar o momento, sem precisar se preocupar no quão comercial o livro será, o que importa para ele é escutar o que a história demanda.

Normalmente escrevo com objetivos narrativos. Minha função é sempre em prol da história, o resto é sempre consequência. Talvez, se eu tivesse uma visão mais guiada pelo mercado, teria escolhido um único caminho, ou gênero, e consolidado meu nome nele. Mas o meu compromisso sempre foi à narrativa e às exigências que ela impõe. — explica

E na questão de sua narrativa, com personagens inusitados e divertidos, Ian tirou inspiração de escritores nacionais e internacionais. Alguns desses autores foram:

  • Socorro Acioli com o livro Cabeça de Santo, que conta a história de um homem que, como último pedido de sua mãe, vai visitar sua avó e o pai que nunca apareceu. Porém, ele acaba preso na cabeça de Santo Antônio, e começa a planejar encontros românticos para as mulheres que passam ali para pedir preces. Essa foi a inspiração principal de Ian;
  • Voltaire com o livro Cândido, ou o otimismo. A ideia do personagem começar andando foi o que deu a inspiração das caminhadas de Mané;
  • Italo Calvino com o livro As Cidades Invisíveis. Fraser ajudou na produção de uma peça com seu amigo, o que deu inspiração para partes do livro;

No final da entrevista, Ian foi perguntado sobre qual lição nasce desse livro. Porém, ele ainda não sabe muito bem sobre, mas tem certeza de uma coisa.

O que eu posso afirmar é que esse livro, assim como Severino, são obras que nasceram do axé, e que foi essa força de vida que me colocou aqui, neste lugar, neste momento do tempo. Sendo assim, sinto que é minha obrigação não só agradecer, mas perpetuar os caminhos abertos para mim. — afirma

Por fim, Cartografia para Caminhos Incertos é mais um grande livro de Ian, que traz um humor divertido e grandes reflexões. É uma leitura que ninguém poder deixar de lado!

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