Quando a vida se torna pesada demais e as escolhas começam a assombrar a mente, despertando ansiedades que antes estavam adormecidas, é nesse momento que olhamos para trás e pensamos: ‘no que falhei?’. Em “Nossa Grande Chance”, novo lançamento de Felipe Cabral, o autor traz uma reflexão importante sobre a coragem de recomeçar mesmo quando tudo parece ruir.
“Nossa Grande Chance” conta a história de Patrick, um roteirista prestes a fazer 40 anos que está em uma crise pessoal e profissional. Tentando recomeçar, o personagem decide criar um musical baseado no livro “Os Meninos de Icaraí”. No entanto, o que Patrick não esperava, era que um romance começaria a nascer entre ele e Júnior, um ator de 23 anos.

Em entrevista ao Literalle, Felipe contou a aventura que foi criar novas perspectivas para seus personagens, trazendo vivências pessoais. O autor destaca que houve momentos em que os sentimentos do Patrick, seu protagonista, ressoavam com questões que ele estava passando na vida real.
“São paralelos bem explícitos com o drama do Patrick, que é um protagonista do livro. O livro foi uma maneira de eu elaborar um pouco essas questões enquanto elas estavam acontecendo, e essa sensação de fracasso, de chegar perto dos 40 anos, eu estou com 39, faço 40 anos no fim do ano. Nessa meia-vida, quando a gente olha para trás e celebra o que a gente já caminhou, e ao mesmo tempo a gente se pergunta para onde a gente vai agora. E quando a gente se vê nessa situação de ‘será que eu fiz tudo errado? Será que as minhas escolhas estão erradas?’. Porque, como eu cheguei agora perto dos 40 anos e de novo não tenho como pagar a conta? E de novo tenho que me reinventar?”, declarou Cabral.
Felipe explica que os sentimentos que ele estava passando na criação do livro refletem no personagem, mas também em toda uma geração que tem medo do fracasso, de encarar a realidade após sonhar com uma expectativa que, muitas vezes, não se concretiza.
“Tudo isso foi um panorama, um caldeirão que me atravessaram na vida pessoal e eu usei como plot inicial para ‘Nossa Grande Chance’. Como seguir em frente quando tudo parece ruir ao nosso redor?”, refletiu.
Um livro sobre sucesso, cobranças e o que fazer a seguir
O autor destaca que na obra há uma discussão sobre o que é o sucesso e como isso afeta Patrick em perceber que ele não é uma grande falha. "A gente vive muito isso, essa pressão de dar certo. O que é totalmente subjetivo. O que é dar certo? O que é fazer sucesso?", relatou.
“Há uma certa força em trazer esses debates para as pessoas não se sentirem sozinhas nessa sensação de fracasso, nesta sensação de angústia. E a gente poder trocar figurinhas de que é mais do que a sua sensação, é um momento que muita gente está passando”, explicou.
Neste cenário, em que o protagonista é um homem de quase 40 anos, existe uma cobrança ainda maior da sociedade ao esperar que nesta idade as pessoas tenham tudo resolvido. Felipe Cabral, aprofunda essa temática sem perder a leveza. “Pra mim, escrever o Patrick com 39, eu tendo 39, foi um jeito de eu elaborar as minhas questões de hoje”, acrescentou.
“Pra mim, foi muito legal escrever um personagem de 39/40, porque enquanto narrativa LGBT, eu consigo ultrapassar, não ficar apenas na questão da aceitação, da família”, declarou o autor.
“Nossa Grande Chance” é um retorno à casa tanto para Patrick quanto para Felipe, é voltar ao primeiro amor: o teatro
Durante a entrevista, Felipe explicou a decisão de colocar Patrick criando um musical para teatro e como isso reflete em suas próprias escolhas na carreira, tendo em vista que além de escritor, Cabral é roteirista e ator.
“O musical, quando eu decidi que o projeto que o Patrick levantaria seria um musical, primeiro eu queria que as histórias voltassem para as raízes dele, e minhas. Então, quando eu estou em crise, na minha vida no audiovisual, eu volto para o teatro”, relatou.
Felipe, reflete sobre as dificuldades que encontrou ao se consolidar no mercado artístico, destacando o preconceito que sofreu por ser gay. “A dor faz parte da nossa vida, a gente lida mesmo com pessoas LGBT com essas questões familiares. Essa própria questão do Patrick de se olhar e tipo, Júnior olhar e perguntar ‘como você não se acha um sucesso?’. Porque, quando eu comecei como ator, eu não podia ser eu. Dar pinta, parecer gay, significa que eu era pior ator, o que é uma mentira. Nenhum ator hétero é questionado. Então, porque eu, enquanto ator, que sou um homem gay, vou ter meu talento medido se eu sei fazer um personagem hétero”, refletiu.
“Então, eu convivo com o teatro todo ano, o teatro foi o primeiro espaço em que eu me entendi gay, em que me entendi ator, onde eu escrevi meu primeiro texto. Então, o teatro é a minha casinha”, comentou Felipe.
Além da diversão por trás da criação do musical para o livro, o autor revela que essa foi uma homenagem para o avô, que competiu em Niterói com o remo, e que a ideia de produzir um musical com base no seu livro era algo que ele definitivamente não descarta.
Um livro que te convida a refletir: a vida é uma sequência de recomeços.
Ao final da entrevista, Felipe Cabral refletiu sobre a mensagem do seu livro e como queria que o leitor se sentisse ao final da leitura. "Como a Verus botou, a minha editora botou que era uma 'comédia romântica divertida sobre voltar a acreditar na vida e em si mesmo'. E eu acho, a própria dedicatória do livro é "Pra quem segue duvidando de si, confia'. A gente duvida muito da gente, mesmo quando a gente vai conseguindo umas coisas. A síndrome do impostor de 'será que vai dar certo? será que não vai dar? Será que tá dando errado por minha culpa?' Então, a gente começa a olhar e falar: 'peraí o que está acontecendo comigo não é culpa minha', é uma questão mercadológica, é esse momento histórico", comentou.
“Então, esse livro é como se para pegar na mão dos leitores e falar: ‘calma, tá foda mesmo, não está fácil não, está difícil, mas não bote o peso nas suas costas, não se sinta sozinho, não tenha vergonha de recomeçar, não se ache estupido de apostar na sua ideia, confia na sua intuição, nas suas ideias’. No livro, o Patrick começa com tudo ruindo. Projeto cancelado, o dinheiro está acabando… Tem uma hora que é muito difícil seguir em frente, mas o livro é sobre seguir em frente. É sobre ele voltar a acreditar que há um caminho, que é possível, reconstruir, recomeçar. Como seguir em frente e não sucumbir totalmente e desacreditar de tudo, e olhar para a frente e falar: ‘eu nunca mais vou amar, eu nunca mais vou ser amado, eu nunca vou conseguir um trabalho legal’, é dar uma respirada e como eu consigo voltar a ter forças”, finalizou.
“Nossa Grande Chance” pode ser adquirido através de plataformas de compra online, como a Amazon, e é um lançamento recente da editora Versus.


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